dezembro 23, 2005

Ladainha dos póstumos Natais


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

(David Mourão-Ferreira)

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julho 06, 2005

tua...



Pintaste a minha vida num quadro em desalinho

Minhas curvas são teus traços,

Minha alma, tua tela.

Estendo lânguido o corpo

Espero a cor

Não sou senão obra tua.

Publicado por cotadaembolsa em 11:28 AM

junho 20, 2005

«Poema que Aconteceu»

 


(Carlos Drummond de Andrade)



Nenhum desejo neste Domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

 

Publicado por cotadaembolsa em 09:09 AM

junho 14, 2005

Ontem...

Ontem foi dia de Stº António.
Morreu Cunhal.
Morreu Eugénio de Andrade.
Vasco Gonçalves foi a sepultar.

... mas ontem ela fez nove anos e eu, ainda que no pior dos Infernos, sempre pude ver o Céu nos seus olhos azuis...

Publicado por cotadaembolsa em 10:44 AM | Comentários (5)

junho 13, 2005

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus

(Eugénio de Andrade)

Publicado por cotadaembolsa em 02:46 PM

março 18, 2005

Come ti amo?

Come ti amo?
Lascia che ti annoveri i modi.
Ti amo
fino agli estremi di profondità,
di altura e di estensione che l’anima mia
può raggiungere, quando al di là del corporeo
tocco i confini dell’Essere e della Grazia Ideale.
Ti amo
entro la sfera delle necessità quotidiane,
alla luce del giorno e al lume di candela.
Ti amo
liberamente, come gli uomini che lottano per la Giustizia;
Ti amo
con la stessa purezza con cui essi
rifuggono dalla lode;
Ti amo
con la passione delle trascorse sofferenze
e quella che fanciulla mettevo nella fede;
Ti amo
con quell’amore che credevo aver smarrito
coi miei santi perduti, 

- ti amo col respiro, i sorrisi, le lacrime dell’intera mia vita!

... e, se Dio vuole,
ancor meglio t’amerò dopo la morte.

(Elizabeth Barrett Browning)

Publicado por cotadaembolsa em 12:00 AM

março 10, 2005

Saudades tuas...

É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.

(David Mourão-Ferreira)

Publicado por cotadaembolsa em 09:10 AM

fevereiro 25, 2005

Retrato (V)

"SE TU MI DIMENTICASSI"

Voglio che tu sappia una cosa. Tu sai com'è questa cosa:
se guardo la luna di Cristallo, il ramo rosso del lento autunno alla mia finestra,
se tocco vicino al fuoco l'impalpabile cenere o il rugoso corpo della legna
tutto mi conduce a te, come se ciò che esiste, aromi, luce,
metalli, fossero piccole navi che vanno verso le tue isole che m'attendono.
Orbene, se a poco a poco cessi d'amarmi
cesserò d’amarti a poco a poco.
Se d'improvviso mi dimentichi, non cercarmi, che già ti avrò dimenticata.
Se consideri lungo e pazzo il vento di bandiere che passa per la mia vita e
ti decidi a lasciarmi sulla riva del cuore in cui ho le radici, pensa
che in quel giorno, in quell’ ora
leverò in alto le braccia e le mie radici usciranno a cercare altra terra.
Ma se ogni giorno,ogni sera senti che a me sei destinata con dolcezza implacabile
se ogni giorno sale alle tue labbra un fiore a cercarmi
ahi, amore mio, ahi mia, in me tutto quel fuoco si ripete,
in me nulla si spegne né dimentica
il mio amore si nutre del tuo amore, amata,e finché tu vivrai starà
tra le tue braccia senza uscire dalle mie.



"SE TU ME ESQUECES"

Quero que saibas uma coisa. Tu sabes como é:
se contemplo a lua de cristal, os ramos rubros do outono lento da minha janela,
se toco ao pé do lume a impalpável cinza ou o corpo enrugado da lenha,
tudo a ti me conduz, como se tudo o que existe,aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam em direcção às tuas ilhas que me esperam.
Ora bem, se a pouco e pouco deixas de amar-me, 
deixarei de amar-te a pouco e pouco. 
Se de repente me esqueceres, não me procures, que já te haverei esquecido.
Se consideras longo e louco o vento de bandeiras que percorre a minha vida 
e decidires deixar-me à margem do coração em que tenho raízes, pensa
que nesse dia, nessa hora, 
levantarei os braços e as minhas raízes irão procurar outra terra.
 
Mas se em cada dia, em cada hora, sentes que a mim estás destinada com doçura implacável. 
Se em cada dia em teus lábios nasce uma flor que me procura, 
ai, meu amor, ai, minha, todo esse fogo em mim se renova, 
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor do teu amor se nutre, amada,e enquanto viveres continuará 
nos teus braços sem abandonar os meus.

(Pablo Neruda)

 

Publicado por cotadaembolsa em 07:04 PM

fevereiro 23, 2005

"mea culpa"

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

- Como quereis o equilíbrio?

(David Mourão-Ferreira)

Publicado por cotadaembolsa em 11:59 PM

fevereiro 07, 2005

Até sempre...

Este post é dedicado à minha Mãe e a todos os que, de algum modo, me foram procurando neste espaço. 
Bem hajam pelo apoio demonstrado.

Fugi por momentos aos abraços. Olhei o rio e o canteiro de rosas, nascidas das cinzas, a ganhar coragem para olhar a chaminé do forno crematório. O fumo e o cheiro subiam velozmente perdendo-se no ar e nos ramos daquela árvore.
«Acabou», pensei.
Foi aí que ouvi de novo a tua voz:
« A menina, se faz favor, não limpa os beijos que lhe dão!»
Lembrei as eternas "esfregadelas" vigorosas, nas bochechas, na ânsia de limpar o mínimo resquício de saliva, de um qualquer palerma carregado de carências.
Voltei, por momentos, àquele canto onde me escondia para não receber as malditas "lambidelas" das visitas e de onde te via partir, todos os dias, sabe-se lá para quando voltar...
Hoje, sei que não me arrancavas dali porque me conhecias como ninguém e lá ias, sem forçar beijos nem meiguices porque eu era a «tua João» e a tua João não gostava de ser "lambuzada". «Sofre e ama em silencio e nunca soube pedir», repetias.
Quase não te dei beijos, de facto... quase até ao fim.
Há pouco, enquanto em ti se escoava a Vida, ganhei coragem e beijei-te por todos os anos passados. Tremiam-me as pernas, sabes?
Quanto disfarcei nesta tua doença...
Quanto fingi ter forças, ao limpar-te as feridas, enquanto todos, os que sempre te beijavam, olhavam de longe e a medo o que iríamos encontrar ao retirar de cada gaze.
Não mais esquecerei os teus olhos que falavam pela tua boca e me perguntavam se o aspecto era melhor.
Não era...
Nunca era.
Desesperei na tua dor. Adoeci contigo. Depois fui médica, enfermeira, por fim tua Mãe.
Lembras-te de quando te dizia que me sentia para sempre "Filha"?
Lembras?
Aos poucos, ensinaste-me que agora era a minha vez de "remar o barco" e entregaste-me, lentamente, a Família.
A morfina levava-te a dor e a Alma.
Por vezes, entravas num mundo só teu, outras, sabias quem eu era e nesses momentos, sem dar por isso ou por quem estava presente, tocava-te como a um bebé e sussurrava-te: «tranquila, esta aqui a mãe».
Por tantos anos, ouvi-te contar orgulhosa que, quando adoecia, te pedia: «reza mamã, reza porque dói muito» e tu rezavas em voz alta a meu lado, horas a fio. Até isto me devolveste...
A três dias da tua partida, num sofrimento sem limites que não te deixava sossegar, sem hipótese de falar ou escrever, pegaste nas minhas mãos e uniste-as, pediste-me com o olhar que rezasse.
«Estou a rezar, mamã, estou a rezar...» mas não bastava, continuavas de olhar fixo, a unir-me as mãos, até me fazeres entender que querias ouvir.
Rezei alto, placidamente, uma e outra Ave Maria, pedi por Ti, pela tua Paz, pela tua Luz e a cada paragem, abrias os olhos implorando mais... mais...
Sabes, não senti o pai entrar, parei por momentos tangida pelo embaraço mas continuei. Percebi que acalmavas e adormecias e quando por fim te deixaste levar pelo cansaço, olhei-o.  Em quarenta anos, pela primeira vez, vi-o chorar.
Ali estava eu, a tua «mais velha», naquele quarto, a mais velha de todos...
Não chorei a tua morte. A Vida teve o cuidado de me ensinar a Amar profundamente, à distância, antes de te levar de mim.
Tu sabes agora do que falo...
Sabes que espero apenas o momento de te abraçar de novo, ciente que a alegria do «Reencontro» apaga a dor mais profunda. Ás vezes volto àquele canto, já não fujo de qualquer meiguice, Procuro-a.
Levo a tua fotografia, acaricio-te o cabelo e digo-te baixinho:
«Beija-me Mamã, beija-me...»

Publicado por cotadaembolsa em 01:15 AM | Comentários (15)

novembro 10, 2004

Para ti, Mãe.

Klimt - Vida e Morte


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

Publicado por cotadaembolsa em 04:22 PM

novembro 01, 2004

Retrato (IV)... por Neruda



Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda

Publicado por cotadaembolsa em 11:53 PM

outubro 18, 2004

E este,...é para ti


E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo,
não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

(Fernando Pessoa)

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setembro 27, 2004

Retrato (II)... por Pessoa e Klimt


Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

Alberto Caeiro

Publicado por cotadaembolsa em 11:41 AM | Comentários (5)

setembro 17, 2004

Retrato...por Régio e Rodin


"Vem por aqui" – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho os com olhos lassos,
(Há nos meus olhos ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: "Vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre nas vossas veias sangue velho dos avós.
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
– Sei que não vou por aí!

CÂNTICO NEGRO - José Régio

Publicado por cotadaembolsa em 09:21 PM | Comentários (11)