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Regra
geral, não gosto de médicos.
Tenho-os em fraca conta, talvez porque, por “profissões da família”,
fosse obrigada a viver perto deles e por isto lhes conheça os
“modus”, bem demais...
A meus olhos, salvaguardadas honradissimas excepções (desculpa mãe),
não passam de “vigaristas letrados”, convictos de ser delegados do
Divino, vomitando sentenças, a peso de ouro, sobre quem morre ou quem
se cura, se entregue em suas mãos.
Tenho ainda algum respeito, pelos velhos “exemplares” de província,
pagos a ovos e galinhas, que percebiam um pouco de tudo, até do direito
à vida de quem não tem um tostão. Os de agora, não são sequer a pálida
herança desses “João Semana”.
A estes, esqueceram-se de lhes ensinar que os “animais” são um todo
e não uma parte, especializaram-se num só “órgão”, não tem
"olho clínico" e fazem-nos saltar de “colega em colega”, qual repartição
de pública, esvaziando os bolsos de quem está já vazio de saúde.
No fim, se o nosso caso for de grande interesse para publicação,
interessam-se por nós e neste interesse, ou nos curam ou nos matam.
A realidade é que, se posso, não vou ao médico. Este, é sempre um
ultimo recurso,
... a menos que, (como de costume) tropece neles:
A
minha mãe estava em fase terminal. Enfiei uns jeans, ténis,
prendi o cabelo, apertei o blusão de couro até me tapar o nariz e sai
de Casa.
Raramente, saio na figura de quem não acendeu a luz para se vestir,
admito até que, quanto ao cuidado com o que meto sobre o “lombo”,
nasci do lado errado da península ibérica, mas de algum modo, nesse
dia, queria passar clandestina por entre “as gentes”, ou talvez por
mim própria.
Vagueei pela cidade até chegar à Foz.
Parei o carro onde nunca antes tinha parado,... apeteceu-me parar mesmo
ali.
Fiz, a pé pela primeira vez na vida, o passeio marginal do rio, perdida
em mim, como se não conhecesse esta cidade que há muito não me traz
segredos.
Todas as lágrimas, não choradas, enchiam-me os olhos, num daqueles clímax
que queremos controlar mas que explode ao mais leve estimulo...
Continuava a caminhar, sem ver ninguém. Só eu, o rio e as garças
nessa manhã de domingo.
Não sei o que me levou a olhá-lo. Estava sentado num dos bancos da
marginal, livro aberto, sol na “fronha” e gorro de lã enfiado até
aos olhos.
«Afinal
os tipos da “Cais” também se “cultivam”»,
pensei...
Tinha um rosto familiar, fiz mais dois passos mas uma força estranha
fez-me dar meia volta. Aproximei-me. «Se você é quem eu penso que
é, está aqui de propósito para me aturar». Com a maior
naturalidade, perguntei-lho.
-
Sou sim, minha
senhora,
levantou-se de repente de olhos arregalados.
-
Eu sou
a João, sou a João e preciso de falar consigo,
acredita no destino?
-
Porquê,
minha senhora?
«Minha
Senhora»,... estou mais velha do que pensava...
Não lhe respondi e sentei-me ao lado dele. Presumo que o homem se
assustou, pareceu-me atónito e calculo que deva ter pensado que não
tinha sorte nenhuma, que afinal aquele gorro caríssimo, não o tornara
anónimo, que o ia devolver na segunda-feira, ou que teria preferido
levar, por duas manhãs, com as lamurias de um qualquer manfio, playboy de outros tempos mas aos de hoje, incapaz de levantar “o braço do Amor”,
ainda que à mão de Deus Pai.
Posso jurar que, quando o homem tirou o gorro, a legenda lhe passou na
testa:
«Só me
faltava esta maluca, num domingo de manha».
Não
me fiz rogada. Sem me benzer ou ajoelhar, confessei ali as dores e os
pormenores mais sórdidos de uma vida atormentada nos últimos tempos.
(...e quanto não teriam pago as “amigas” por um relato,
pormenorizado, daquele monólogo...)
Acontece que, de facto, sabe-se lá porquê, sou muito mais de ouvir os
outros do que de falar de mim... mas aquele "estranho", pareceu-me o
“alvo” ideal para uma consulta de psicanálise, sobretudo condicente
com a crise nacional e portanto a custo zero. Para além disso, de
“sofá” ao ar livre, com o rio de fronte e o sol na “tromba”.
Falei tanto quanto falam as mulheres, bom, talvez mais do que falam as
mulheres,... tanto e de tantas coisas,... como se, ao deitar fora
pensamentos “apodrecidos”, me libertasse da visão da carne
podre e do rosto desfigurado de minha mãe.
O homem não falou durante aqueles (talvez) 15minutos. Continuava a
ouvir-me (penso) com o livro entre as mãos.
-
Sinto-me
perdida,
disse-lhe.
Fez-se
vivo. Penso que, também ele, começava a sentir-se mais calmo no meio da bizarra
situação e balbuciou:
-
A
alternativa à vida, é viver. Parece-me que, sobretudo,
precisa de falar e chorar. Posso arranjar-lhe ajuda, se quiser.
Eu venho na lista telefónica. Apareça.
Levantou-se
e partiu com o seu livro.
Fiquei ali por mais algum tempo, sem me reconhecer, sem acreditar que,
aquela meia hora, pertencia agora ao espólio da minha vida.
Acho que não lhe agradeci. Não voltei a pensar muito nisto.
Não fui à lista telefónica, nem apareci. Limpa de todos os males,
peguei nas minhas forças e esgravatei para cima. Sorrio hoje quando
penso, misticamente, que alguém pôs aquele “murcon” no meu caminho,
quando eu precisei dele.
Eu sempre gostei de o “ouvir”, não que o homem diga coisas que eu não
sei, normalmente não diz. Mas diz as coisas que não dizemos e fala do
que não falamos, tudo com aquela ironia positiva que torna os homens irresistíveis.
O
"murcon" tem agora um blog e eu serei,
seguramente, uma das tipas atentas aos bitaites que ele manda.
P.S.
já agora, se me permite um conselho: invista em Camilo (talvez, «Coração,
Cabeça e Estômago»), assim que se fartar de Eça.
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