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Cheguei
tarde e jantei só.
Castigo absolutamente merecido, para quem nasceu em conflito com a “noção
de pontualidade".
Não sei bem o que jantei, agora que já passou, apenas me lembro de ter
devorado o, sempre desconcertante, Telejornal, com uma tranquilidade
pouco vulgar.
No País, apenas uma fraca Tragicomédia Grega, indigna do
Teatro de Siracusa.
Felizmente ninguém nos conhece lá fora, felizmente a vergonha fica
dentro de portas como em “Casa de Família honrada”.
E para quem não sabe, a consequências política que a Ministra da
Educação retira, da balbúrdia que esta a levar à loucura os que
ensinam os nossos filhos, é:
«Ser Ministra da Educação, dá imenso trabalho».
Brilhante...
- Cara Senhora, espero que não durma esta noite. Far-me-à
companhia, é que, não sei em que estado de descompensação estará o
professor a quem vou entregar a filha e isto preocupa-me um bocadinho.
Menos mal que, vamos à cabeça da manada em alguns pontos
comuns a paises desenvolvidos. Os portugueses estão mais gordos, sofrem
mais do coração e têm o colesterol elevado. Em vez de beber, comemos
para esquecer a desgraça, tá visto.
Libertaram as Simonas italianas. Fiquei satisfeita. Raramente acontece.
Quando nos aventuramos a comparar as mágoas caseiras, com as Notícias
do Mundo, achamos que a nossa simples "vidinha de Casa",
em nada fica a dever ao Éden.
Lá fiquei a ouvir as Simonas e a rogar pragas à tradução simultânea,
porque aquela gente eu gosto de ouvir sem mácula:
«Eles pediram-nos desculpa e queremos voltar ao Iraque».
Inicialmente, o paradoxo pareceu-me ter por base o clássico fascínio
raptor/raptado, depois percebi que se tratava apenas do poder das ligações
afectivas, a uma cultura e a um povo. Estas italianas viviam no Iraque há
já alguns anos.
Apesar da minha obsessão por novas culturas e "modos",
conhecer "um árabe" nunca foi sonho que alimentasse. Não
tenho nada contra árabes ou contra a sua religião mas não gosto de extremismos,
sejam políticos ou religiosos e eles são exímios no exagero.
Pois é, mesmo assim, conheci.
A Latifa e o Majid são, tão só, o Recuerdo de mais uma viagem.
Bom, não daquelas minhas Viagens Refrigério, em que vou ao
Deus dará, e seja o que Alá quiser. Esta, foi particularmente
programada e por isso saiu da pior maneira possível.
A páginas tantas, estava presa na “Jaula Dourada Resort ***** ”,
e tudo mais era deserto.
Antes de cometer uma loucura, mas já depois de ter dito mal da minha
vida, vezes sem conta, aparecem-me estas duas figuras, provando que o
velho lema de que «nada é perfeito», é valido para as
imperfeições.
Não sou de desconfiar sem motivo, mas confesso que quando percebi o arabesco
da coisa, me meti a olhar para o ar à procura de aviões descontrolados
contra o meu Resort.
A vida só me prega partidas e afeiçoei-me às criaturas. Devo aqui
dizer que, tudo começou por um voluntariado forçado. As criaturas afeiçoaram-se
a mim ainda antes do assunto ser paritário. Para todo lado onde ia, os
árabes preenchiam a minha sombra.
Pensei no meu passado, vasculhei o mais profundo fosso das minhas
anteriores vivências e não me lembrava de ter insultado o Corão.
Bom, «querem ser mesmo meus amigos», pensei.
O meu francês saiu manco (imaginei o exemplar castigo que
levaria se a "Ma Mére" me tivesse ouvido pontapear os verbos
de forma tão deselegante. Personifiquei a desonra do Franco-Colégio).
Mas como de costume, lá me safei sem grandes vergonhas, se pensarmos no
que teria sido uma tentativa de balbuciar um "se" na língua
mourisca.
Deliciei-me durante 7 dias.
Sorvi, avidamente, cada "conto" sobre os seus costumes e
apenas os perdia de vista nas horas em que recolhiam
ao quarto, para as
5 orações diárias, ou para fazerem amor (aqui entre nós, aposto que
em igual número).
Assisti a algumas orações boquiaberta. Ficava no jardim do hotel, contíguo
ao seu quarto esperando-a, já pronta, para nova viagem aos Shopping’s a
50 km da Clinica de Luxo enquanto ela, consumista exacerbada, se lavava
a correr, vestia a túnica, metia o lenço, estendia uma toalha branca
no chão e se voltava de joelhos para Meca que, quando não sabemos onde
é, basta virar o rabo para o oceano (as coisas que eu aprendo...).
Não estando particularmente interessada na inspecção da segunda
actividade, vim mais tarde a saber que a Latifa não usava verniz
porque, após cada contacto sexual, a água deveria tocar todo o corpo,
primeiro do lado direito e depois esquerdo. Assim sendo, se a coisa
fosse como eu asseguro que era, a acetona seria mais premente que uma mala
de mão. Também achei bem que não usasse verniz.
Penso que o Paraíso da minha amiga árabe não diferia do meu, à falta
de melhor, uma eficaz sessão de compras servia perfeitamente.
E quanto compramos Deus meu...e quanto compramos Alá seu...
Nos últimos dias, ofereceu-me a Vuitton que eu namorei toda a
semana, sorriu-me com um sorriso largo e infantil e beijocou-me no meio
da rua. Não costumo gostar destas manifestações publicas de afecto
mas talvez pela Vuitton, talvez pela transparência da sua
alegria, gozei a fundo esse momento.
Vou visitá-la um dia destes.
Vou telefonar-lhe amanhã... acho que ainda não lhe disse que o meu
bisavô era judeu.
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